Espelho da alma

          






 Um dia, me deparei com o reflexo no espelho do meu quarto e percebi o impacto do envelhecimento em mim. Observando meu semblante triste e abatido, notei que a luminosidade brilhante de minha essência estava enfraquecida, não tendo mais aquele resplendor vigoroso de outrora, quando eu era menina.

            Ao me contemplar no espelho, pude avaliar a condição do meu espírito, compreendendo que meu corpo físico apenas refletia o que estava acontecendo internamente. Através do reflexo, testemunhei toda a minha trajetória de vida, como se fosse um filme, com começo, meio e fim, sendo somente Deus o conhecedor desse desfecho.

         Percebi que minha alma tem perdido sua luminosidade há um bom tempo, revendo cada instante da minha existência e refletindo sobre as adversidades impostas pela vida e pelo passar do tempo. Fui alvo de julgamentos e penalidades por aqueles que cruzaram o meu caminho, sendo questionada por minhas ações, palavras, pensamentos e pela minha maneira de ser e enxergar o mundo. Fui submetida as críticas em todas as dimensões.

        Existem indivíduos que sentem pena de mim pela forma como levo a vida e por ter um filho como o Léo, pois muitos o enxergam apenas como insignificante na sociedade. Mas o que me importa o que pensam? Para mim, ele é um anjo enviado por Deus para cuidar e amar. Alguns pensam que sou louca por ter uma perspectiva diferente e enxergar as coisas de outra maneira, outros não gostam da minha forma de ser e agir, me rotulam como fria, calculista, incapaz de amar. Será que essas pessoas conhecem o verdadeiro significado do Amor? Acredito que não, ao fazerem tais comentários. Por outro lado, há aqueles que me veem como alguém especial, forte, alegre, otimista, espiritualizada, uma mãe zelosa, de caráter e honesta. Afinal, cada um me enxerga como quer.

         A vida segue seu curso, o tempo escorre diante de nós sem que percebamos. Pessoas entram e saem de nosso caminho, sendo raras aquelas que verdadeiramente merecem a minha amizade. Observo o reflexo no espelho e enxergo a dor que habita em minha alma, uma dor que às vezes parece não ter fim. Contudo, mantenho minha fé em Deus, acreditando que um dia esse sofrimento se dissipará ou ao menos será aliviado. A razão dessa dor? Não consigo elucidar, talvez seja um mistério que nunca desvendarei.

       Ao contemplar o reflexo da minha alma, visualizo o caminho que tenho por percorrer, e a oportunidade de talvez renascer a fé no amor e amar novamente. Reconquistar a crença em um futuro mais promissor e vibrante. Navegarei pela jornada da vida como um barco à mercê das águas agitadas. Minha existência é marcada por altos e baixos, sendo estes últimos mais frequentes, para falar a verdade; ainda não encontrei o caminho certo. Será que um dia encontrarei? Não sei. Apenas Deus sabe.

     Esse espelho marca presença em minha jornada, em cada lugar que eu vá, ele está lá me recordando que a vida é efêmera, que tudo o que vivencio é passageiro e um dia tudo passará. E, então, poderei respirar com leveza e desfrutar de uma existência mais serena. Enquanto isso não acontece...

      Sempre retornarei ao meu espelho em busca de orientação. Essa é a escrita do meu livro da vida: o caminho que devo trilhar e dar o meu melhor nesta existência.

Observação: Este texto foi escrito em janeiro de 2015, meu filho faleceu em 19 de outubro de 2020.

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